Lendas do Futebol - Eusébio

Eusébio

Eusébio da Silva Ferreira nasceu a 25 de janeiro de 1942, em Maputo (Lourenço Marques), Moçambique, no seio de uma família de origens humildes. Criado numa sociedade muito pobre, Eusébio passava muito do seu tempo a jogar futebol descalço com os amigos enquanto deixava as aulas para segundo plano.

A primeira equipa de Eusébio, embora totalmente amadora, viria a ser um clube local chamado de “Os Brasileiros”. Mais tarde, o Pantera Negra tentou ingressar no Grupo Desportivo de Lourenço Marques, um clube afiliado do SL Benfica, mas sem sucesso. O seu primeiro clube viria a ser o Sporting Clube de Lourenço Marques, clube afiliado do Sporting CP. Conquistou dois títulos ao serviço do clube de Moçambique: Campeonato Provincial de Moçambique e o Campeonato Distrital de Lourenço Marques.

Depois de duas épocas no clube moçambicano, Eusébio viria a estar no centro de uma história com pano para mangas. Tanto o Sporting como o Benfica queriam os serviços do avançado. Em teoria, tudo indicava que Eusébio se fosse juntar ao clube de Alvalade tendo em conta que jogava num afiliado do Sporting. Contudo, o Sporting queria contratar Eusébio como júnior, sem nenhuma compensação monetária. Já o Benfica, que tinha sido avisado do potencial de Eusébio por intermédio de José Carlos Bauer (que tinha sido treinado pelo atual treinador das águias na época, Béla Guttmann), acabou por oferecer 350.000 escudos pelo avançado.

Em dezembro de 1960, Eusébio chegou a Lisboa e foi mandado para Lagos, no Algarve. Tudo isto porque o Benfica tinha receio que o Sporting tentasse raptar Eusébio e conseguisse levá-lo para Alvalade. Eusébio chegou mesmo a ter um nome de código: Ruth Malosso

Sport Lisboa e Benfica

Eusébio viria a ser registado como jogador dos encarnados apenas no ano seguinte, em maio. A sua estreia aconteceu no mesmo mês, num jogo amigável contra o Atlético. Nesse jogo já era possível ter um vislumbre do que Eusébio poderia oferecer ao Benfica: um hat-trick na estreia e poucos conseguiriam melhor prenúncio. A sua estreia oficial aconteceu alguns dias depois contra o Vitória de Setúbal para a segunda mão da terceira eliminatória da Taça de Portugal. Este jogo também esteve envolto em controvérsia uma vez que o Benfica tinha disputado a final da Taça dos Campeões Europeus em Berna, na Suíça, no dia anterior. Assim sendo, o Benfica entrou em campo ainda na ressaca da primeira grande vitória europeia da sua história e com a equipa de reservas. Eusébio marcou um golo e ainda falhou uma grande penalidade. O Benfica acabaria por perder o jogo por 4-1 e o agregado final das duas mãos também foi desfavorável às aguias (4-5). A última “estreia” de Eusébio seria finalmente para o Campeonato de Portugal, na última jornada, contra o Belenenses. Marcou um golo e ajudou a equipa a alcançar a vitória.

 No final da época, o Benfica participou num torneio amigável em Paris que acabaria por cruzar os caminhos de Eusébio e Pelé; Benfica contra Santos. Depois de estar a perder por 4-0, Béla Guttmann decidiu colocar Eusébio em campo. Pouco depois desta substituição, o Santos acabaria por chegar à mão cheia de golos. Mas em 17 minutos, Eusébio mostrou todo o seu talento ao fazer um hat-trick e ainda sofreu uma falta com direito a penálti. A conversão ficou a cabo de José Augusto que acabou por falhar. O resultado final foi de 6-3, com Pelé e o seu Santos a saírem vitoriosos de Paris, mas Eusébio sairia como capa do prestigiado jornal “L’Equipe”.

Na temporada seguinte, Eusébio viria a confirmar que nada era por acaso e que realmente havia muito talento nos pés do Pantera Negra. Embora o Benfica tenha falhado a conquista do Campeonato Nacional, Eusébio marcou 12 golos em 17 jogos. Os encarnados conquistaram a Taça de Portugal contra o Vitória de Setúbal e Eusébio fez o gosto ao pé duas vezes. Mas a maior conquista dessa época foi mesmo a reconquista da Taça dos Campeões Europeus. Eusébio marcou dois golos nessa famosa vitória contra uma poderosíssima equipa do Real Madrid. O Pantera ficaria em segundo na corrida à Bola de Ouro na sua primeira temporada completa como profissional.

Em 1963, 1965 e 1968, o Benfica não conseguiu vencer as finais da Taça dos Campeões. Em ’68, Eusébio esteve perto de garantir o terceiro título europeu às águias nos segundos finais do jogo, mas o guarda-redes do Manchester United defendeu e os Red Devils acabariam por vencer no prolongamento. Em 1965, Eusébio acabaria por ganhar a Bola de Ouro e terminou em segundo em 1962 e 1966. Em 1968, foi o primeiro vencedor da Bota de Ouro, algo que repetiu cinco anos mais tarde. Ganhou a Bota de Ouro nacional em sete ocasiões diferentes, tendo ajudado o Benfica a vencer 11 campeonatos, uma Taça dos Campeões Europeus e a chegar a mais três finais europeias. Em jogos oficiais, Eusébio marcou 473 golos em 440 jogos pelo Benfica, sendo que 317 foram marcados em 301 jogos do Campeonato Nacional e 59 golos em 78 jogos europeus. Ao todo, o Pantera Negra alcançou uns invejáveis 727 golos em 715 jogos com a camisola dos encarnados.

Seleção Nacional

Até 2005, Eusébio era o melhor marcador de sempre da Seleção Nacional com 41 golos em 64 jogos. Mais uma vez, Eusébio estreou-se a marcar pelas Quinas na sua primeira internacionalização, num jogo contra a Jugoslávia.

Contudo, a maior conquista de Eusébio com a Seleção Nacional viria em 1966, no Mundial de Inglaterra. Nos dias de hoje, pese embora algum sofrimento desnecessário, já é muito habitual vermos a Seleção Portuguesa na fase final das competições internacionais. Mas isso nem sempre aconteceu. A primeira aparição foi precisamente no Mundial de ’66 em Inglaterra e foi quase um conto de fadas.

Portugal ficou no grupo da Hungria de Puskas, da Bulgária e do Brasil de Pelé e Garrincha. A Seleção Nacional arrecadou três vitórias e mandou o Brasil (o campeão do mundo) para casa. Nos quartos de final, Portugal tinha jogo marcado contra a Coreia do Norte. Depois de estar a perder por 3-0 aos 25 minutos, a Seleção Portuguesa, sobretudo por intermédio de Eusébio, deu a volta ao placar com quatro golos consecutivos do Pantera Negra. O jogo acabaria com uma vitória portuguesa por 5-3.

Mais um momento controverso na história dos mundiais. Portugal iria defrontar a Inglaterra nas meias-finais. À última hora, os oficiais ingleses mudaram o estádio onde o jogo seria disputado e havia rumores na altura que alegavam que os ingleses não queriam ser derrotados em casa por uma equipa que estava a disputar apenas o primeiro mundial da sua história. Portugal teve de fazer uma viagem de última hora de Liverpool para Londres. No que diz respeito ao jogo, Eusébio foi muito marcado pela Seleção Inglesa, mas ainda assim conseguiu fazer o único golo de Portugal. No entanto, o final do jogo ditaria a eliminação de Portugal, mas ainda com o jogo do 3º lugar no horizonte. O jogo contra a Inglaterra viria a ser conhecido como o Jogo das Lágrimas.

O jogo pelo 3º lugar seria disputado contra a União Soviética. Eusébio encontraria um adversário à altura da sua qualidade técnica: Lev Yashin. No entanto, Eusébio levou a melhor, marcou um golo e Portugal venceu o jogo por 2-1. Depois de 56 anos, o 3º lugar conquistado no Mundial de Inglaterra continua a ser a melhor participação portuguesa de sempre.

Final de carreira

Eusébio deixou o Benfica em 1975 e juntou-se à já extinta equipa dos Boston Minutemen. Jogou 7 partidas e marcou dois golos. No mesmo ano, foi para o México jogar pelos Monterrey, tendo marcado um golo em 10 jogos. Antes de regressar a Portugal, jogou ainda no Toronto Metros-Croatia onde marcou 16 golos em 21 jogos. Foi também lá que conseguiu vencer a National Soccer League.

Aveiro seria o destino escolhido por Eusébio para regressar a Portugal, embora só tenha realizado 12 jogos pelo Beira-Mar e marcado três golos. Depois, voltou para os Estados Unidos para fazer 17 partidas e dois golos pelos Las Vegas Quicksilvers. Mais um voo para Portugal, desta feita para jogar no União de Tomar (12 jogos e três golos) até terminar a carreira nos EUA, depois de jogar pelo New Jersey Americans (9 jogos e dois golos). Ainda jogou pelos Buffalo Stalions (futebol indoor). Retirou-se oficialmente em 1979 e ficou a trabalhar de perto nos quadros da Seleção Nacional.

Honras de Panteão

            No dia 5 de janeiro de 2014 era anunciada a morte de Eusébio da Silva Ferreira aos 71 anos de idade. Multiplicaram-se as homenagens, especialmente num momento recordado por todos quando o caixão de Eusébio foi levado para uma volta de honra no Estádio da Luz. Um dos maiores futebolistas de todos os tempos e tido por uma gente como uma pessoa muito humilde e educada, Eusébio tornou-se o primeiro jogador de futebol a fazer parte do grupo de ilustres do Panteão Nacional. Deixou um legado incalculável no futebol e ainda é lembrado hoje como um dos melhores de todos os tempos.

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